(Por Maíra Morais)Quando estávamos prestes a iniciar a etapa de entrevistas, e a aventura propriamente dita, começamos a imaginar como seriam as pessoas que conversariam conosco. Se os profissionais da adoção seriam acessíveis e bondosos e se os pais teriam paciência para nos acolher também, ainda que por somente a duração da entrevista.
Os abrigos e a "falha nossa"
Tivemos um bocado de dificuldade no início. A presidente do primeiro abrigo de crianças especiais, ao qual ligamos, disse que seria impossível conversar com ela e, mais ainda, com as crianças. Ficamos bastante decepcionadas, mas não insistimos e fomos visitar outra instituição. O começo que já parecia bem complicado, piorou. Por falta de experiência, ou pelo receio de ouvir outro “não”, fomos ao segundo abrigo que havíamos listado sem dar aviso prévio ao presidente ou ao assistente social. Combinamos que seria apenas uma visita para ter uma ideia de como eram as crianças e as pessoas que conviviam com elas. No abrigo, conversamos com vários adolescentes e crianças mais velhas. As conversas, porém, eram tão sensibilizadoras que erramos. Deixamos o instinto jornalístico se sobrepor a nossa curiosidade humana e sensível. Ligamos o gravador.
Temos que dizer que erramos, pois nada justifica utilizar como material o depoimento dos meninos e meninas que nos trataram como amigas, e não como repórteres. A ideia de transformar pessoas em personagens era tão impossível que preferimos apagar as sonoras feitas, e, nesse momento, entendemos o primeiro “não” da nossa trajetória. Somente quem convive com as crianças sabe realmente o que elas sentem e conhece a dificuldade de ajudá-las a repensar uma vida longe da família biológica. Qualquer pergunta mal formulada ou incitação de lembranças de um passado mal resolvido machuca, atrapalha o desenvolvimento dessas crianças.
A presidente do primeiro abrigo que, à primeira vista, nos pareceu extremamente fria e rude, depois desse episódio, ganhou nossa total compreensão. Quem está no abrigo precisa de muita proteção.
Após insistir em várias instituições de acolhimento e mostrar nosso roteiro de perguntas a assistentes sociais e psicólogos, conseguimos agendar várias entrevistas com crianças, presidentes de abrigo e com profissionais da Vara de Infância e Juventude. E, sim, quebrada a barreira inicial, todos foram muito acessíveis e bondosos.
As crianças
Quanto às crianças, foram as que mais idealizamos. Talvez, pelo fato de muitas delas não terem tido um início de infância semelhante ao que tivemos, achávamos que elas responderiam nossas perguntas se queixando de solidão e abandono, ou que seriam meninos e meninas tristes. Logo no primeiro abrigo que visitamos, conhecemos um adolescente, cheio de ambições, que nos provou o contrário. Luciano*, de 15 anos, estava bem tímido no começo da entrevista, mas, depois de algumas brincadeiras e assuntos despretensiosos, revelou seu sonho para nós. Assim, sem termos sequer iniciado as perguntas do roteiro, ele contou que queria ser chef de cozinha e que seu maior desejo era fazer uma lasanha. Foi um dos momentos mais surpreendentes de todas as entrevistas. Esperávamos sonhos como ter uma casa para morar, receber amor incondicional ou ganhar uma família. Quando vimos o brilho nos olhos do menino ao explicar como achava que devia ser feita uma lasanha, nos deparamos com uma infância inteira de carências que, por um momento, parecia ser resolvida com tão pouco. Não que o sonho de Luciano* fosse menos digno, mas, para nós, ele representava o sublime no banal.
Sublime como todas as crianças e jovens que conhecemos, cada uma à sua maneira: Júlia*, de oito anos, e seu sonho de ser médica para cuidar de outras crianças; João*, de 13, com seu talento para desenho e a certeza de que será designer de interiores; Luana*, de 10, e a vontade de adotar um filho, quando crescer, para lhe dar a oportunidade que não teve. Esses e todos os outros que entrevistamos nos modificaram um pouco, abriram nossos olhos pré-conceituosos para que pudéssemos enxergar uma realidade um bocado difícil, algumas vezes triste, mas, acima de tudo, encantadora e emocionante.
As famílias

O termo “acolhidas” seria um eufemismo diante de tamanha disponibilidade, atenção e confiança que recebemos. Pais e mães não só nos acolheram em suas casas (pessoalmente ou por telefone), como compartilharam conosco os momentos de dificuldades e alegrias, medos e superações. O primeiro abraço no filho, a pior bronca e as etapas da construção do afeto foram todas reveladas para nós, a princípio, duas estranhas. É difícil compactar em palavras a sensação que tivemos em cada uma das casas que visitamos, em cada história que nos foi contada. Na casa de Clarissa e Sérgio Kowalski, por exemplo, é impossível traduzir a paz e o amor que sentimos logo quando cruzamos a porta de entrada. Sérgio tocou a música preferida de Gabriel, seu filho adotivo, no piano, para nós, e ele e Clarissa conversaram tanto conosco que mais parecia uma visita do que uma entrevista. Mesmo após desligarmos os gravadores e encerrarmos as perguntas do roteiro, não conseguimos ir embora. Dava vontade de fazer parte daquela família também.
Júnior de Carvalho, pai adotivo de Theodora, também teve muita paciência ao atender um interurbano e se atrasar 40 minutos para o trabalho só para nos contar sua experiência para nós. Foi maravilhoso entrevistar alguém de outra cidade (Catanduva, SP) e, ainda assim, sentir a emoção de suas palavras através do telefone.
Adotar não é um ato de caridade, mas esses pais e mães têm sim um quê de heróis. Não por “salvarem” ou darem uma chance para as crianças, mas por darem uma chance ao amor. Por acreditarem que, assim como em qualquer outro relacionamento, podem conhecer cada detalhe de outra pessoa e amá-la apesar de suas diferenças.